sábado, 27 de fevereiro de 2010

O último capítulo antes dos outros

Hoje apresentamos o último capítulo do livro "O espírito do monhé". Mas quando falamos livro, referimo-nos apenas àquela encadernação ranhosa que anda lá para nossas casas há anos e que guardamos como se fosse um pequeno tesouro. Além disso ainda existem uma série de papeluchos e guardanapos com outros capítulos inéditos e escaldantes feitos pouco tempo depois. Embora muitos estejam perdidos para sempre e alguns já quase não se conseguirem ler, pois foram escritos com bâton em papel higiénico (sem comentários), vamos tentar decifrá-los e apresentá-los aqui no blog. Noutros casos só temos algumas folhas soltas que nem conseguimos ordenar, mas mesmo que faltem algumas palavras, frases, ou até folhas inteiras, achamos que a história não vai perder a coerência que a caracterizou desde o início.

"O espírito do monhé", cap. VI

"Com muito esforço e dedicação, o monhé tentava desesperadamente sair do transe psíquico-analgésico em que se encontrava, mas como os pêssegos não nascem em figueiras, nem as latas de coca-cola são biodegradáveis, vamos ficar por aqui antes que saia mais bacorada."

Não é um desfecho ideal para a história e nem sequer é um desfecho. Mas foi o que se arranjou... É um capítulo curtinho e conciso que fala por si e que deixa em aberto uma série de possibilidades de desenvolvimento da história. Por outro lado foge ao velho cliché do "viveram felizes para sempre". Ou isso ou o contrário...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A "cardimoca"

"O espírito do monhé", cap. V

"Mesmo com as suas novas capacidades psíquico-mentais, o monhé continuava com varicela cerebral, handicap que o impossibilitava de realizar o seu maior desejo, que era, ao fim ao cabo, o maior desejo de todos os monhés desde o momento em que nascem: ser o mais parecido possível com uma pessoa (objectivo raramente concretizado).

Rumando ao desconhecido, entrou ocasionalmente numa taberna perto de Santa Clara do ovo mexido, onde tencionava afogar as suas mágoas em algo que não fosse leite em pó. Quando ia no décimo quarto chá de pimentão teve uma ideia que iria revolucionar o mundo da culinária: a "cardimoca". Uma nova erva aromática que, segundo o monhé, iria ser mais consumida que a ervilha de cheiro. A sua constituição era muito simples e baseava-se fundamentalmente na fusão de um cardo com uma limoca, com um cheirinho de aguarrás.

Mais uma vez as suas ideias não foram compreendidas pela sociedade. Foi condenado a 3 semanas de detenção e a ingerir 10 caixas das suas "cardimocas", sob acusação de perturbar o bem estar público. Só aí é que descobriu a sua inutilidade interno-acrobática (era mesmo burro), e resolveu não ajudar mais nenhuma velhinha a atravessar a rua, como medida de protesto contra esta sociedade podre em que não vivemos. Por isso e muito mais, vamos ficar por aqui e esperar pelo próximo capítulo (vamos lá a ver se é desta que nós escrevemos alguma coisa que se aproveite)."


Foto da "cardimoca".

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Contra posições exteriores

"O espírito do monhé", cap. IV

"Devido a contra posições exteriores, o capítulo 4 não sairá. Tenho dito!"

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Silicofosfato de tetracálcico

"O espírito do monhé", cap. III

"Recuperando do ataque de reumático causado por razões socio-estruturais e pela posição insterior da poluição sonora, o que levou ao desaparecimento da raça Bonga-monga da superfície lunar, o vosso herói, por incrível que pareça, decidiu não fazer nenhum. Mas a dura realidade era só uma: ele mesmo não fazendo nenhum não conseguia estar quieto, por isso resolveu ficar quieto e não fazer nenhum.

Dotado de uma perseverança fabulosa, decidiu avacalhar o sistema retributo-vegetativo e seguir as patadas do pai para a Cochinchina.

Recuperando o fôlego, decidiu fugir novamente do manicómio para, muito esforçadamente, criar a teoria da condensação perfeita entre o nexo e o desnexo, teoria utilizada por milhares de marceneiros frustrados e por nós também.

Foi novamente condecorado, depois de 48 anos de jejum, pela sua brilhante actuação em "Xingu", devido às suas erradas proporções psiquico-anatómicas, mas os seus dotes artísticos não o abandonaram, pois a sua refeição preferida sempre foi salmão com batata frita.

Fugindo, tal qual seu pai, à hecatombe, não achou difícil a profissão de pasteleiro, e continuaria não fosse a guerra (ter acabado), mas devido, não só, ao seu pouco prático esquema cérebro-intelectual, como também à fraca supressão atómica das moléculas de silicofosfato de tetracálcico, não levou dali nada e seguiu o seu rumo.

-Quékisto tem aver cakilo?
-Quécakilo tem aver kisto?"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Cano de esgoto: entradas e saídas

"O espírito do monhé", cap. II

"Olá, aqui estamos de novo. Esperamos que não tenham gostado do primeiro capítulo, pois este é bastante pior e subconsequentemente... pior! Mas deixemo-nos de rodeios e vamos ao que interessa. Mas afinal o que é que interessa? (suspense).

Bom, já em Cabo Verde, o nosso, perdão, o vosso herói começou por desenvolver uma importante plantação de cocos. Explorou os habitantes lá do sítio, pagando-lhes meia pataca/ano, até enriquecer à custa deles.

Um dia o terror chegou à cidade. Um psicopata assassino recém chegado da Nova Zelândia começava a fazer as suas vítimas. Com fogo no olhar e trémulas mãos assassinas, o assassino avançava para mais uma vítima. Mais um pobre plantador de palmeiras se esvaia em sangue enquanto o seu carrasco lhe virava as costas sarcasticamente.

O vosso herói deparava-se agora com um novo dilema: como fazer com que o sangue derramado nos cocos não lhe afectasse a venda das melancias? Mas bastou-lhe "raciocinar" um pouco para rapidamente desenvolver um poderoso removedor de nódoas para cocos, ideia não muito feliz que causou um surto de escarlatina por toda a vasta região dos Alpes Noruegueses, o que o levou posteriormente a ser deportado para as Berlengas pelas autoridades Filipinas.

Foi aí que decidiu ser mergulhador aquático, profissão que não o apaixonou particularmente devido ao fraco teor de sal nos bacalhaus ensonsos, e também porque fazia muito frio lá em cima.

Fugindo à cadeira eléctrica em 1503 AC por ter feito más críticas ao famoso livro "Cano de esgoto: entradas e saídas", foi viver o resto dos seus míseros dias para Catramaxias de Cima, onde se dedicou exclusivamente à caça do javali Africano. Mas como em Catramaxias de Baixo não havia leopardos, muito menos indianos, o vosso herói pensou profundamente na sua vida e chegou à conclusão que quem ler isto está a perder tempo e não precisa de óculos.

-Corta!!! Quem é que deu o guião a esse monhé?
-Qual guião? Nós aqui não usamos disso...
-Atão temos que por um fim a isso!
-É para já!

Fim

-Não, não, não!
-Sim, sim, sim!
-Bem, vamos lá a por alguma ordem nisto. Onde é que ia a história que eu já não me lembro?
-Que eu me lembre a história não ia a lado nenhum. Acho que desde há bocado, ninguém saiu daqui...
-Mas porquê? Porquê?!
-Porquê o quê?
-Mas porquê o quê, o quê?
-Perdão, é aqui o estúdio 4?
-Não, aqui é o 8. O 6 é lá mais à frente.
-Obrigado.
-Nada. Apareça sempre.

O nosso herói, vendo que era a frustração em pessoa, decidiu seguir pelo caminho da arte, mas constatando que todos os monhés da altura seguiam o ramo artístico, pensou para dentro e disse que não. Ele não queria ser só mais um monhé, ele queria ser um monhé especial e atingir o objectivo que a sua família perseguia à milhares de gerações: ser mais inteligente que outra, aliás, que uma pessoa. Mas mesmo assim não desistiu e continuou na mesma.

Foi tornando-se escritor que se deu conta da sua verdadeira vocação: faxineiro (ainda fazia histórias piores que esta)... Depois de escrever vários romances fracassados decidiu fugir para a Costa do Marfim."

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Célulazinhas cinzentas

"O espírito do monhé", cap. I, 6ª parte

"Já estava inserido no seu novo meio e no seu novo trabalho. Era extremamente desgastante e exigia muito de si pois, lavar, limpar, enxaguar, desentupir e desintoxicar a pia da casa-de-banho do secretário adjunto do encarregado, não era para qualquer um... O seu novo chefe era muito badalhoco e refilava por qualquer pequeno deslize, o que levava o pobre monhé a esmerar-se nas suas importantes funções de limpar o cagatório oficial lá do sítio.

Mas o seu famoso espírito inventivo não o abandonou, não tendo aguentado sequer duas semanas sem utilizar as suas famosas célulazinhas cinzentas (êxtase humorístico), que, diga-se de passagem, eram em reduzidíssimo número para uma cabeçorra tão grande. Foi despedido por inventar um revolucionário e poderoso desentupidor de sanitas que, não fosse o ajudante do cozinheiro o ter confundido com o frasco do fermento e o ter posto na salada de atum, o que matou centenas de refugiados kurdos por intoxicação, teria entupido as encanações num raio de milhares de kilómetros.

Depois de ver gorada mais uma tentativa de inserção na sociedade, decidiu regressar a Cabo Verde, onde novas e emocionantes aventuras o aguardavam..."

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Spock Aníbal e os Antropófagos

"O espírito do monhé", cap. I, 5ª parte

"Cansado de lutar contra moinhos de vento e vítima de uma sociedade constrangida que não o compreendia fazia, logicamente, dele um incompreendido, razão que o levou a cometer adultério a si próprio e a fugir com a mulher do bibliotecário para a Caparica, onde teve tempo para concretizar o seu sonho de criança: tocar ferrinhos numa banda.

O único precalce naquele momento era a falta de um nome adequado para a banda. Depois de observar cuidadosamente uma longa lista encabeçada pelo nome "Crespo e os Ouriços", decidiu que "Spock Aníbal e os Antropófagos" era o mais ortodoxo. A banda alcançou as luzes da ribalta fazendo a banda sonora do filme "Vida canina" de Joaquim Matacão. O auge da carreira foi alcançado pelo estrondoso "êxit" da famosa melodia "aperta a ver se apita".

Já numa fase descendente da sua carreira teve ainda tempo para representar um pequeno papel na famosa comédia de João Matreco e Mané Penteado: "Ronhonhó alentejano", onde se destacaram as participações de Funji Cida, Feia de Suza e ainda de Quim Trazado, no protagonista.

Retirando-se posteriormente da 7ª arte, retornou às origens e requereu a reforma, retirando-se para uma fábrica de salsichas no sul da Florida, onde foi presenteado à chegada com um presunto autografado pelos Mum-Rá (extravagância típica local) e uma garrafa de Amarguinha "made in Portugal" com rótulo em espanhol, pela bela Marylinda Nãoroy, devido à importante descoberta do recarregador de isqueiros com bateria de 9 volts e da lâmpada quase eléctrica a pedais."

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O berbigão e o louva-a-deus

"O espírito do monhé", cap. I, 4ª parte

"Recém chegado à Nova Zelândia, depois de atravessar as frias estepes Malveirenses a cavalo de uma mula, deparou com dois seus velhos conhecidos: Rambo Neco e Tarzoon Bido, famosos pelas suas brilhantes actuações em TV Rural e Crime disse ela. Convidaram-no para ir marfar uma caldeirada de cabrito a casa do Bugalho, mas assim que o nosso herói se apercebeu que o prato principal eram carapaus grelhados, vieram-lhe à memória tristes recordações do dia em que abandonou a sua carreira de peixeiro, quando teve de comer todo o seu stock de besugos. Enquanto os outros se deliciavam com pirolitos e gelados de cola, ele empanturrava-se com bacalhau da Noruega...

Tentou logo escapulir-se perguntando subtilmente a localização da casa-de-banho. Uma vez lá dentro, atirou-se imediatamente para dentro do autoclismo, mas constatando que o autoclismo não era uma forma de saída viável, decidiu saltar pela janela, que por acaso até estava aberta.

Enfim, foi uma amizade que proliferou por aqui além até Belém, e como eu sempre digo, cevada não é trigo. Foi por estas e por outras que o nosso herói passou despercebido pelas auréolas da humanidade, nunca tendo desviado os seus pensamentos para o cerne da questão, ao fim ao cabo a base de toda a estrutura cosmológica, ou seja, a célebre pergunta que todos ansiavam responder: Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?

Ovo e galinha esses que apesar de menosprezados pela existência de teses paralelas que apontavam o berbigão e o louva-a-deus como mais prováveis antecessores da humanidade, sempre foram os mais cotados representantes da Terra nos jogos olímpicos interplanetares."

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

De grão a grão

"O espírito do monhé", cap. I, 3ª parte

"Aos 18 anos de idade emigrou para Almeirim, concelho de Azambuja, onde se dedicou esforçadamente à profissão de capelão, sendo carrasco em part-time devido ao reduzido conteúdo do cesto das gorjetas e porque o chaval com boné à "puto da fisga" lhe palmava os tustos todos, não lhe deixando uma única pataca. Já aos 19 anos, com um imenso espírito empreendedor e dotado de uma perspicácia fabulosa, desenvolveu a tese mundialmente conhecida: de grão a grão acabam-se todos os grões.

Simultaneamente ao que se passava na Mesopotâmia, ia preenchendo a sua lista de condecorações, sendo considerado o carrasco do ano de 1564 (1993 cabeças fora). Era uma época em que a inquisição não lhe dava descanso. Este facto levou-o a abandonar a profissão de capelão para ir cortar cabeças a tempo inteiro para o Havai, a serviço de um importante mafioso.

Montou na sua mula Albertina, pois o nosso herói era de um opinião que um homem de mula vale por dois, além de pensar que a bicicleta estava fora moda e que os triciclos eram para pessoas mais velhas, despediu-se confiante em si próprio, meteu a primeira e lá foi ele a caminho da terra prometida.

Mas, decididamente, aquele não era o seu dia de sorte, pois a meio caminho entre Almeirim e a Sibéria, o nosso herói foi atacado por um enxame de furiosos carapaus salteadores, os famosos "carapaus de corrida". O pobre monhé desistiu, perdão, resistiu, e possuidor de um notável espírito numismático e de um facalhão de talhante de longo alcance que lhe fora oferecido pelo Ghengis Khan aquando da sua primeira visita oficial a Santacombadão ao serviço do Vaticano, conseguiu superar a violenta investida dos seus opositores e ratou-os até à espinha, tornando-se posteriormente peixeiro.

Constantando que ficar o dia todo sentado numa câmara frigorifica a vender besugos não era a sua vocação, pegou nos seus bagulhos e decidiu seguir viagem."

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Coisa mai' linda

"O espírito do monhé", cap. I, 2ª parte

"Já dentro da sua mãe, que era tia ao mesmo tempo, se tinha notabilizado pela sua enorme falta de raciocínio, mas em contrapartida possuía um complexo "espírito" inventivo, que o levou, na altura do parto, a tentar sair por um ouvido. As consequências não foram as melhores, pois a mãe ficou com problemas auditivos, e ele com um pé maior que o outro. Mas ele não desanimou, e opinou logo que melhores dias viriam.

Foi quando a criança veio ao mundo que se notou que aquele "capricho da natureza" não era normal, e o quão importante era aquele momento para toda a humanidade, bem como para o desenrolar da História. Assim que apanhou o par de galhetas do médico, motivado não unicamente por razões de natureza técnico-columbófila, desatou na brincadeira e na palhaçada com o cordão umbilical, indagando-se continuamente acerca do porquê daquele bocado de tripa pendurado na pança, ao contrário do resto dos bebés, que disferem imediatamente um poderoso arroto com um desagradável, mas interessante, cheiro a camarões com maionese (última refeição da mãe), que geralmente soa a um Jeová a impingir bíblias.

Foi já fora da maternidade, que por ironia do destino era simultaneamente a taberna mais concorrida do Afeganistão, que o pequeno rebento deparou com um mundo totalmente estranho e, em sua opinião, com demasiados tons de azul. Subitamente, constatou que algo não estava bem e tratou logo de conjugar todos os seus esforços em chamar a atenção da taberneira para lhe mudar a fralda."

terça-feira, 31 de outubro de 2006

No início era o Monhé...

"O espírito do monhé", cap. I, 1ª parte

"Não foi uma vez, quem sabe duas ou talvez três, que Jacó, obrigado pela sogra, possuidora de material altamente comprometedor e que poria em risco a vida de milhares de jesuítas inocentes se viesse a ser descoberto, teve de enviar os filhos p'ró deserto plantar abacaxi para fugir à hecatombe. Foi aí, que seu filho, que nem sequer era seu, de nome José Cebolão Casquinha de Foleiro e que sofria de chulé e mau hálito, encontrou a mulher dos seus sonhos, que por acaso era também sua irmã. Despertado pela típica curiosidade de adolescente, e sabe-se lá mais por quê, Cebolão fez o que não devia, e às duas por três, já a sua irmã Esmeralda tinha um inchaço na pança. A princípio não se deu grande importância a este facto, pois julgou-se ser uma vulgaríssima picada de pernilongo Africano, mosquito, ou de qualquer outro bicharoco, o que era vulgar na sua idade, mas, passados 9 meses, o facto consumou-se... E como Cebolão não era nada burro, e até conhecia os 9 mandamentos, meteu o puto num caixote de óleo fula e mandou-o ao Mondego dar uma curva, pois o Nilo tinha muitas protuberâncias.

Foi encontrado à beira de um canavial perto de Caxias por um hebraico, descendente de pai alentejano e mão cigana, que julgou ser aquilo uma importante dádiva da Natureza, mas que cedo se apercebeu do quanto estava enganado..."

Ainda hoje o monhé transmite a sua sabedoria, acerca do rio que o viu partir, ao povo Ocidental.